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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Homem, de 26 a 35 anos, Persian, English, Sexo, Dinheiro
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Caixa Preta
Mensagens que dão sono

A Vila (The Village/2004) Direção: M. Night Shyamalan Com: Bryce Dallas Howard (Ivy Walker), Joaquin Phoenix (Lucius Hunt), Adrien Brody (Noah Percy), William Hurt (Edward Walker), Sigourney Weaver (Alice Hunt).
Foi alardeado pelos quatro cantos que "A Vila", último filme de M. Night "o-diretor-de-O-Sexto-Sentido" Shyamalan, tem efeito bastante reduzido em quem o assiste com algum conhecimento prévio. Considerando que o filme já percorreu o circuito de cinema e chega agora às videolocadoras, é difícil que sobrem muitos espectadores indiferentes à história. Evitando a leitura de críticas na época de sua exibição -- não me animei a ver no cinema --, consegui alugar "A Vila" sabendo o mínimo possível sobre seu conteúdo. Uma cidadezinha situada ao lado de uma floresta onde vive um povo estranho e que quase nunca aparece. Só isso. Mas o resultado de todo esse respeito com o filme ou a opção de assistí-lo sem a influência de qualquer opinião alheia, não foi muito recompensador.
Shyamalan claramente quis apresentar outra coisa que não um filme de terror e, nesse sentido, é até heróica sua tentativa de subverter o gênero. Há uma quantidade razoável de simbolismos na história e, mais ainda, uma metáfora rasgada sobre o isolamento norteamericano pós-11 de Setembro e as táticas usadas para disseminar o medo e fabricar inimigos (falar mais seria entregar a história). O problema, na prática, é que em momento algum o filme engrena e há certos diálogos escritos sob medida para aquele espectador padrão de blockbusters que precisa de tudo muuuuito explicadinho.
A tentativa de assustar via elemento desconhecido e fabricar medo apenas com o poder da sugestão, definitivamente não funciona. "A Bruxa de Blair", com recursos precários e sem revelar coisa alguma, mostra como uma floresta e seus sons podem ser aterrorizantes. Shyamalan, após mais de uma hora de filme, teve a chance de explorar essa possibilidade, mas fracassou gloriosamente. Que a intenção aqui seja outra, vá lá, mas a tensão inexiste e me parece que isso é (ou deveria ser) um problema. As parcas cenas de suspense começam em nenhum lugar e chegam a lugar nenhum e é provável que essa falta de clima seja causada pelo notável desinteresse de Shyamalan, mais ocupado com subtextos e sua já tradicional preocupação com grandes reviravoltas. A idéia aqui é lançar mão de recursos do cinema comercial para armar uma cama de gato para o espectador e deixar nele uma marca permanente, fazendo-o refletir sobre as mensagens embutidas na trama. O conceito insinua-se interessante, mas sofre pela comparação ("O Show de Truman", de outra maneira, concretiza melhor uma variação do tema) e pela forma como ele é apresentado (ritmo extremamente arrastado e uma reviravolta já esperada).
"A Vila" acaba revelando-se material soporífero. Em momento algum você se sente parte daquela comunidade e isso é condição primordial para acreditar no que vem depois. Seja o drama ou o suspense. Em "Dogville" -- a comparação é cruel --, Lars Von Trier precisa de 10 minutos, se tanto, para arrastar o espectador para dentro de um vilarejo e colocá-lo na pele da fugitiva Grace. As reuniões de anciãos de "A Vila" são pálidas representações diante do hermético conselho de moradores de "Dogville". E no filme de Von Trier não há recurso convencional para ajudar a história. Num palco com fundo infinito e casas com paredes imaginárias, o dinamarquês faz mais do que Shyamalan com os loooongos e cansativos diálogos de sua aldeia de verdade. O elenco de "Dogville" também injeta vida nos personagens -- Nicole Kidman, Philip Baker Hall e Ben Gazzarra geniais --, algo que falta em "A Vila". William Hurt, muito bom como o chefe do vilarejo, e Adrien Brody, perfeito como o doente mental que desequilibra a história, contribuem para uma sensação de familiaridade com a cidadezinha, mas o resto do elenco não tem liberdade ou inspiração para tal. Sigourney Weaver está apagadíssima num papel secundário e Joaquin Phoenix continua tão inexpressivo quanto em "Sinais", do mesmo diretor. A atriz principal, Bryce Dallas Howard, tem atuação padrão.
Não fosse "A Vila" experiência tão sonolenta, seria o caso de rever o filme e dar mais atenção ao que está nas entrelinhas. Deixo a tarefa para outros interessados...
 Nem Adrien Brody salva a vila de Shyamalan
Escrito por Mr Eddy às 13h22
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Suspense antigo, horror moderno...
Por alguma dessas estranhas e interessantes coincidências, os cinemas de São Paulo exibiram numa mesma semana - a primeira de 2005 - uma amostra do suspense antigo e do horror moderno. O CineSesc apresentou o cultuado "Profondo Rosso", de 1975, em exibição única e gratuita, enquanto as salas multiplex abriram generoso espaço para a pré-estréia de "O Grito" (The Grudge), refilmagem do terror japonês "Ju-On".
PROFONDO ROSSO

Lançado há 30 anos, "Profondo Rosso", de Dario Argento, faz parte da linhagem clássica dos filmes "gialli" italianos. É exercício de um diretor com grande capacidade de compor uma atmosfera baseado quase exclusivamente em imagens. Há travellings sensacionais, jogos de luz e sombras e close-ups absurdos que revelam um resquício psicodélico (a câmera tira rasantes de brinquedos destroçados e de uma agulha que desliza suavemente por um disco de vinil).
A trama vem em formato clássico: personagem testemunha um crime, fica obcecado em resolvê-lo e se mete a conduzir uma investigação particular. É a mesma estrutura usada por Hitchcock em "Janela Indiscreta" e que depois serviu de inspiração para muita gente, como Brian De Palma, no excelente "Um Tiro na Noite". Em todos os casos, as testemunhas são homens e têm uma companheira/cúmplice em suas investigações. Em "Profondo Rosso", a testemunha é o pianista inglês Marcus Daly (David Hemmings, dublado criminosamente em italiano) e sua parceira, uma jornalista chamada Daria (Gianna Brezzi). Os diálogos são bem escritos e os personagens caem logo nas graças do espectador. Há também muito humor nas conversas entre eles, e nas intervenções do debochado Carlo (Gabriele Lavia), colega de Marcus. Faz parte dessa forma de contar histórias que o espectador saiba tanto do crime quanto os personagens. E funciona.
Argento monta um quebra-cabeças interessante e vai alimentando o suspense com a forma original com que cada nova vítima é exterminada. Nesse sentido, "Profondo Rosso" precedeu os filmes sobre assassinos em série como o das franquias "Halloween" e "Sexta-feira 13", onde o interessante era ver como cada crime seria praticado. Três décadas após seu lançamento, o filme "giallo" de Argento ainda funciona. Sãos as bem tramadas seqüências de suspense, muito mais do que os assassinatos, que fazem os espectador cravar as unhas na poltrona. Uma dessas passagens, que mostra uma escritora sozinha em casa e ciente da presença do assassino, é simplesmente magistral. Argento nega ao espectador ver coisa alguma durante minutos e essa espera é mais apavorante que qualquer violência gráfica.
"Profondo Rosso" tem todas essas qualidades de um bom suspense no qual o personagem central e sua missão estabelecem empatia imediata com o público. O mistério, como manda o figurino, é mantido até os minutos finais. Mas talvez esteja aí, justamente no desfecho, o único problema de "Profondo Rosso". Apesar do humor negro injetado por Argento, a revelação é feita às pressas, sem o clima envolvente com que a história tinha sido apresentada até então. Talvez fizesse bem se o filme fosse encurtado em 10 ou 15 minutos, dando à seqüência final mais fôlego e atenção. Uma outra implicância, essa meramente pessoal, é a trilha assinada pela banda Goblins. Ainda que a música funcione em boa parte do filme, há um momento-chave (ida de Marcus à mansão abandonada) que é tremendamente atrapalhado por todas aquelas viradas de bateria e floreios de contrabaixo. É de se pensar que diferença faria ter ali um score musical de Jerry Goldschmidt ou Bernard Hermann no lugar do prog-rock hiperativo dos Goblins. Mas isso é pêlo em ovo: "Profondo Rosso" vale muito a pena por todo o resto.

O GRITO

A campanha de marketing para o lançamento de "O Grito" incluiu inserções comerciais em horário nobre, grandes anúncios em jornal e outdoors espalhados por São Paulo inteira. Se o filme justifica o hype? Difícil cravar uma opinião. "O Grito" é mais um remake de horror asiático produzido para o público acostumado com o padrão de Hollywood. E por padrão nesse caso, entenda-se ritmo mais ágil, olhos mais arredondados e rostos mais conhecidos (Sarah-Michelle Gellar, a "Buffy" do seriado de TV, e Bill Pullman). Mesmo sem ter visto o original "Ju-On", fica a impressão que não houve qualquer tentativa de adaptar o filme na marra para um formato mais convencional. E isso é até compreensível: "O Chamado", refilmagem de "Ringu", fez um tremendo sucesso sem precisar arruinar a idéia original dos japoneses e, no caso de "O Grito", foi mantido o diretor original (Takashi Shimizu).
A premissa do filme é simplória: numa casa em que alguém morreu cheio de ódio/rancor, uma "energia" mantem-se ali presa e dá cabo de quem quer que cruze com ela. Karen (Sarah-Michelle Gellar) é uma estágiaria americana que vive em Tóquio e certo dia é enviada para cuidar de uma senhora, também americana, depois que a enfermeira Yoko desaparece misteriosamente. A tal senhora é aparentemente catatônica e a casa tem aqueles barulhos assustadores que as mansões mal-assombradas do cinema normalmente têm. Há cenas de terror sem suspense e isso é ruim. Shimizu parece apressado em apresentar logo suas idéias tenebrosas e esquece de preparar o espectador para elas. É o contrário do que fez Argento em "Profondo Rosso". Mas há, pelo menos, uma coisa em comum: Karen, que testemunha as assombrações, também fica obcecada pelo mistério e começa a investigá-lo por conta própria.
Os maiores trunfos de "O Grito" são a forma não-linear e corajosa como a história é contada (eventos são apresentados fora de ordem e só passam a fazer sentido rumo ao final do filme) e algumas seqüências especialmente bem arquitetadas. É impossível deixar de lembrar cena em que personagem afetada pela maldição percebe presença estranha nos corredores vazios da empresa onde trabalha. Em cada passo de seu encontro com o horror, ela age de forma convicente: pede ajuda ao vigia noturno, sai correndo quando a coisa fica feia (horror em circuito fechado, como em "O Chamado") e, já em seu apartamento, se enfia embaixo do cobertor numa tentativa infantil de se proteger. Desenvolvimento perfeito numa cena que deve ser momento especial do cinema em 2005. Outra dessas passagens perturbadoras é o momento em que Karen vai atrás da viúva de um suicida (Bill Pullman, tão esquisito quanto estava no clássico "A Estrada Perdida") e descobre que, em todas as fotos do casal, há a presença de uma garota os observando.
O horror explícito no desfecho da história também merece lembrança. Em meio a um desfile de imagens horripilantes (cena da escada é terrível), os eventos vão sendo colocados em ordem através de duas seqüências contadas em tempos paralelos. Recurso muito bem usado e que justifica a narrativa pouco convencional para um produto do gênero.
Em clássicos como "O Exorcista" ou mesmo em produções subestimadas como "A Troca" (há texto sobre esse filme aqui no blog), o sobrenatural entra devagar na história e os personagens têm vidas normais, tentando se relacionar com o inexplicável da forma mais racional possível. Isso ajuda a criar uma conexão com o público e potencializa as cenas de terror quando estas aparecem. Em "O Grito" isso não acontece: a trama pouco sai do terreno fantástico e o filme, por conseqüência, não consegue "respirar". Essa opção e uma certa pressa em assustar, depõem contra a direção/roteiro de Shimizu, mas "O Grito" passa longe de ser empulhação. É terror moderno para quem morre de medo de japonesas lânguidas de cabelos no rosto e imagens distorcidas em monitores de circuito fechado.

Escrito por Mr Eddy às 22h53
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